Folclore Musical Pesquisado

 

Com a criação do Centro de Pesquisas Folclóricas, Luiz Heitor foi considerado um importante personagem no trabalho de investigação folclórica. O fato de ter assumido a primeira cadeira de Folclore oferecida na Universidade do Brasil trouxe status de campo de estudos superiores à disciplina (ARAGÃO, 2005:14). O folclore musical pesquisado foi direcionado a algumas regiões do Brasil, a saber:

  1. Estado de Goiás (primeiro ano de coleta, 1942): gravou-se 19 discos de 12 polegadas, contendo 64 documentos.
  2. Estado do Ceará (1943): gravou-se 75 discos, contendo 262 documentos.
  3. Estado de Minas Gerais (1944): gravou-se 100 discos, contendo 280 documentos.
  4. Estado do Rio Grande do Sul (1946): gravou-se 116 discos, contendo 293 documentos.

Relevâncias históricas

A antropologia, em suas tentativas de sistematização do estudo das tradições culturais, buscou a abordagem em três conceitos distintos: o de áreas culturais, aproveitado da antropologia americana do início do séc. XX, que tinham a idéia de que "grupos de povoamento contíguos, com modos de subsistência, organização social, religião, artes etc. similares, pertenciam à mesma área cultural"; o de círculos culturais, elaborado por antropólogos alemães, conhecidos como difusionistas, voltava-se para a interpretação histórica, com a idéia de que grupos de culturas comuns não precisam ser contíguos geograficamente; e o de método histórico-geográfico ou histórico cultural, adotado por pesquisadores escandinavos, objetivava o mapeamento dos conteúdos culturais, que subsidiariam o mapeamento dos diferentes povos (Aragão, 2005:25-27). É com base no último conceito do método histórico-cultural, aproveitado do livro Folclore Brasileiro de Joaquim Ribeiro (1944), que Luiz Heitor organiza seu mapeamento da música folclórica conforme mapa abaixo:

Mapa de AZEVEDO (1954) apud Volpe (2008)

Mapa de AZEVEDO (1954) apud Volpe (2008).

O mapa está organizado com ênfase em dois fatores: música e etnia (ARAGÃO, 2005:33). Essa busca determinista do que é e onde está a tradição popular, foi uma preocupação constante dos estudiosos do folclore até meados do séc. XX. Obviamente, este horizonte de investigação não reflete mais os anseios e necessidades dos pesquisadores atuais. Numa visão específica da música, a questão do universo de abordagem do folclore musical é ponto de discussão da etnomusicologia que não nos cabe aqui abordar.

Um dos trabalhos de maior relevância para a nossa música brasileira foi a preocupação de divulgá-la na Europa através da UNESCO. Tal preocupação constituiu uma obstinação para Luiz Heitor à frente dos trabalhos de registro dos acervos mundiais de música. Um dos exemplos é constatado em sua correspondência quando solicita sua assistente do Centro de Pesquisas Folclóricas, Dulce Lamas, esforços para reunir em bobina de gravação o melhor e mais significativo material de música popular no Brasil para fazer parte da "Coleção Universal da Música Popular Gravada" que a UNESCO estaria editando.

Na missiva encontra-se o repertório de seu interesse, com indicações dos Estados e os gêneros musicais. Esse material é decorrente de suas pesquisas folclóricas no país. Em suas palavras podemos encontrar um resumo do conteúdo do acervo da música folclórica coletada e que se encontrava no Centro de Pesquisas Folclóricas:

Examinei com toda a atenção as listas "seletivas" que você preparou, e que são muito boas. Minhas sugestões são as seguintes: (1) para Goiás – Enm 7 B, b: Você disse que me quer bem; (2) para o Ceará – Enm 87 A Baião Enm 56 Desafio (porque você escolheu esse Desafio de preferência a outros? O documento está mais interessante? A gravação está melhor? Este último ponto, sobretudo, para o que almejamos, é essencial) – Enm 105 B Embolada moreninha – Enm 105 A Parcela de embolada – Enm 77 B, a A Macumba na favela – Enm 75 B a Cambinda briante – 78 B, b Quando é de madrugada – 76 A, b o que beco estreito – Enm 64 A. a Schottisch – Enm 48 A, b Raposa magra – 97 B, a Toadas de Xangô (bale-ô o mafunga) – Enm 102 A, b Xangô, xangô – Enm 102 B, b macumbeiro; (fora da sua lista sugiro, também, a cópia dos seguintes: Enm 82 B, b Baião – As Florestas do sertão); (3) para Minas Gerais – Lc 37 B, a Rio abaixo – Lc 38 A, b Ponteado do tico-tico – Lc 59 A, a/b Catopés – Lc 60 B Rio Preto – Lc 65 B, b Adeus mana Chiquinha – Lc 67 A, b Recortado da cidade – Lc 83 A, b Vissungo – Lc 83 B, a Vissungo de capataz – Lc 91 A, b Coco voltado inteiro – Lc 98 B, a Fogo em terra, guerra no mar; fora dessa lista sugiro a cópia dos diversos Vissungos que se acham nos discos Lc 62 A – Lc 65 A/B – Lc 82 A/B – Lc 83 A/B – Lc 84 A/B – Lc 84 B, c – Lc 57 – Lc 21 B; o Vissungo do disco 57 é muito importante e deve ser copiado; e o mesmo que já havia sido copiado sobre um disco que eu trouxe, em 1950 mas cuja a cópia não estava muito boa; (4) para o Rio Grande do Sul – Enm 137 B Ogum – Enm 145 B Iemanjá – Lc 126 A Canto à porfia (sugiro fora a sua lista a cópia dos Cantos de Oxum, disco Lc 110). Entre os discos de Minas Gerais podiam ser copiados, também, as Cantigas Infantis dos discos Lc 38 B, a e seguintes, até 40 B, c. Para os documentos de música vocal longos (Desafios, etc. estou de acordo com o princípio da gravação de 2 ou 3 estrofes. Os documentos curtos (cocos, cantos de maracatu, etc.), ou os que apresentam um interesse de desenvolvimento melódico e emocional excepcional (inovações de ritos fetichistas, Vissungos, etc.) devem ser reproduzidos por inteiro.